quinta-feira, 2 de junho de 2016

GRANDES NOMES

CHALANA

Chalana e a bola. Qual axioma! A suspeita começou pouco tempo depois de abandonar o berço. A confirmação ocorreu por altura daqueles primeiros passos titubeantes. A prova, essa, encontra-se na quase totalidade das fotografias do Fernando nos tempos da infância. Chalana e a bola. Sempre! Herdeiro foi de uma casta notável de futebolistas. No Barreiro. Terra de muita(s) luta(s). Terra de Azevedo, de Carlos Gomes, de Pireza, de Félix, de Moreira, de Vasques, de José Augusto, de Adolfo. De gente grande do oficio da bola. Que marcou décadas gostosas de futebol. No Benfica ou no Sporting. Na defesa de outros emblemas. Um pouco por todo o lado.



Ainda gaiato, Chalana jogava, jogava muito, quase sempre com os mais velhos. Baixo, franzino, fazia futebol inocente, mas nele havia uma maturidade esquisita. É que já inteligia o jogo, deixando os outros, mais forte, mais altos e de mais idade, embasbacados q.b..

O tirocínio fê-lo no Jogos Juvenis do Barreiro. Enquanto suspirava pela CUF, divertiu-se no futebol de salão, alinhando pela equipa de Serpa Pinto. Arrebatou o troféu de melhor marcador, a Taça Joanina. Logo surgiu a cobiça dos Unidos e do Sporting do Lavradio, conquanto o seu segundo amor haveria de falar mais alto. No corta-mato, já pela CUF, venceu a competição de Lisboa para iniciados e, em Coimbra, averbou a quinta posição no Campeonato Nacional.


Correr sim, mas com bola, desse modo cortou a paixão pelo atletismo, bem cerce, não sem antes ter corrido quilómetros e mais quilómetros, num exercício que a vida justeza fez. Bateu à porta do departamento de futebol juvenil da CUF, com 14 anos. Como inepto o trataram. Foi rejeitado. Imperava a lei da cunha. Afinal, o que lhe sobrava em talento, aos pais, operários da actual Quimigal, faltava em influência.

Recepcioná-lo-ia o Barreirense.

Com idade de juvenil actuava já nos juniores. A pinta não dava lugar a equívocos. Logo, Juca o chamou para o seio dos mais velhos. Um puto entre homens feitos, seis jogos, apenas seis, era jogador do Benfica. Para trás ficava, entre outros, o convite do Sporting. Pouco leonino, já que oitocentas notas de mil não comoveram os responsáveis de Alvalade. Teimoso, um tal Sr. Edgar, na Luz, desfazia-se em louvores ao miúdo Fernando Albino. Tal como São Tomé, o treinador Pavic sentou-se, um belo dia, na bancada do campo do Oriental. Chalana não desmereceu. O jugoslavo ficou de olhos arregalados.

A 6 de Março de 1976, o Anfiteatro da Luz como que virou pia baptismal. Lá jogava o Sporting Farense, em partida do Campeonato. Já com os ouvidos entregues aos sábios conselhos do mestre Ângelo, treinador dos juniores encarnados, Chalana escutou as indicações do britânico John Mortimore. Tinha 17 anos e 25 dias. Ao intervalo entrou para o lugar de Toni, anos mais tarde seu técnico, para quem “depois do Eusébio, foi o Chalana o mais espectacular jogador que pelo Benfica vi passar”. A estreia apadrinhada foi também por Bento, Artur, Eurico, Messias, Bastos Lopes, Vítor Martins, Vítor Baptista, Nené, Jordão e Diamantino. Triunfo por 3-0, com golos de Jordão (2) e Nené. Neste mesmo mês no dealbar da Primavera, voltaria Chalana a jogar entre os consagrados, de novo na Luz, ante o Sporting de Braga que regressou ao Minho, vergado ao peso de uma derrota, por 7-1. Campeão menino se fez essa temporada. De juniores e de seniores. Despontava o Pequeno Genial da prosa escorreita de José Neves de Sousa.

No ano seguinte, inconcebível era um Benfica sem Chalana. Fez quase o pleno de jogos. O primeiro falhou. Foi o da derrota, em Alvalade, por 3-0, na abertura do pano do Nacional de 76/77. Pedagógico, dir-se-ia, o insucesso. É que depois, deu Chalana, muito Chalana, sempre Chalana. De resto, segundo melhor marcador viria a cotar-se, logo depois do eterno Nené, começando a virar hábito o tangencial 1-0 do Benfica, com ponto por ele assinalado. Foi assim na Antas, em Coimbra, na Póvoa de Varzim… E o Benfica de novo campeão se fez.

O futebol cristalino de Chalana cedo o levou também à Selecção. Ainda não tinha atingido a maioridade, que não a futebolística, já o então seleccionador, José Maria Pedroto, com ele contava para as empresas do combinado nacional. Perante a Dinamarca, com vitória difícil, por 1-0, Chalana rubricou trabalho preeminente. “Chalana é um jogador “super-sénior”, que tem a visão ou a presciência de um futebol de cem metros, quer dizer, de um futebol do campo todo, que só se faz se cada um e todos os jogadores de uma equipa têm nos olhos os quatro vértices de terreno onde o jogo se pratica e são capazes de meter a bola em todos os pontos desse rectângulo”, escreveu, por essa altura, mais coisa menos coisa, o jornalista Vítor Santos.

 
O rapaz do Barreiro continuou a encantar. É verdade que, de 78 a 81, o Benfica jejuou. Foram os anos brasa da luta Norte/Sul, com o FC Porto a impor-se, por uma unha negra, em 77/78 e 78/79. Da primeira vez, o insólito aconteceu, invicto terminou a prova o Benfica, só que o goal average madrasto foi. Da segunda, um só ponto separou na pauta as duas equipas. Já no ano imediato, o Sporting conquistaria o ceptro, após a menos luzidia campanha benfiquista. Mesmo assim, Chalana fazia as despesas da alegria. Era, por essa altura, o melhor jogador português, como deixava entender Mário Wilson: “Ele é futebol da cabeça aos pés. Sim, ele é todo futebol. É senhor de intuição extraordinária para jogar à bola. Numa equipa com Chalana é simples resolver qualquer problema, porque ele é um rapaz cheio de futebol. Um rapaz capaz de solucionar qualquer problema. Além disso, não se envaidece. Por isso, Chalana é um craque”.

O Europeu, de 84, em França, terá sido o palco onde o jogador mas fez refulgir o génio. Apeado dos grandes certames internacionais, desde a odisseia de 66, numa fase sabática que provocou descontentamento, eis Portugal de novo entre os grandes, pela primeira vez na fase final de um Campeonato da Europa. Nessa altura, bipartia-se a liderança do nosso futebol. Por isso, Benfica e FC Porto cederam o grosso do contingente que arraiais assentou em terras gaulesas.

Os empates com a Alemanha e a Espanha, mais o triunfo sobre a Roménia, guindaram os herdeiros dos Magriços às meias-finais da competição. Infantes os rotularam, sendo que infante maior Chalana haveria de ser. Produziu lances ornados de fantasia, com técnica superior, de bela plástica. Estatura meã, cabelos ao vento, barba farta, espírito guerreiro, concitava todas as atenções, qual Astérix na Gália. Da poção mágica não rezam as crónicas, antes do futebol enleante, provocador, eficaz.
  
Inesquecível esse despique com a França, pais organizador e campeão da prova. A poucos minutos do fim, o adversário parecia agonizar, perante a vantagem portuguesa, já em pleno prolongamento, graças às cirúrgicas assistências de Chalana ao felino Jordão, goleador de serviço. Só que Portugal sucumbiu nos derradeiros instantes. Chalana e seus pares derramaram…lágrimas de Portugal.

No começo da época subsequente, partiu para França, de novo, milionário contrato havia assinado pelo Bordéus. Uma aventura que não resultou. Lesionado gravemente, rescindiu o vinculo, perdeu muito dinheiro, ao Benfica regressou, corria o ano de 87, após calvário que se não deseja ao mais refinado inimigo.

Nem gozou a final da Taça dos Campeões, essa mesma época, frente ao PSV. Estava magoado. Era a sua sina. Dois anos volvidos, viajou com a equipa para Viena. Ficou fora da lista de convocados, já na erosão da carreira, por cruel veredicto de Eriksson. Era a segunda impossibilidade prática de vingar a derrota com o Anderlecht, na única final europeia em que interveio. Haveria de gozar, isso sim, um triunfo, mais de uma década adiante, no também único jogo que orientou na condição de treinador principal do Benfica.


Estádio da Luz, Lisboa, 30 de Novembro de 2002. Benfica, 3 – Sporting de Braga, 0. Chorou. Porque os campeões também podem ser meninos.

VIDEOS

VITÓRIAS E PATRIMÓNIO CHALANA (PARTE 1)



VITÓRIAS E PATRIMÓNIO CHALANA (PARTE 2)



VITÓRIAS E PATRIMÓNIO CHALANA (PARTE 3)