domingo, 5 de junho de 2016

GRANDES NOMES

ROGÉRIO "PIPI"

Rogério Lantres de Carvalho
Natural de Lisboa — 7 de Dezembro de 1922

Era o protótipo do futebolista fino, armador genial, fintador extraordinário, marcador temível. Mas com a genialidade intermitente. Imprevisível. Em que tanto poderia atingir o golpe de asa como deixar-se a escabujar em lamaçal de inutilidade. Por isso se dizia que se o Rogério fosse sempre o Rogério dos seus melhores dias teria sido um dos melhores jogadores do Mundo da sua geração...
Nasceu em Chelas. Seu pai fora um dos fundadores do Chelas, que, fundindo-se com o Fósforos, haveria de dar origem ao Oriental. Seu irmão Armínio França fora uma das mais refulgentes estrelas do clube que o pai fundara. Por isso, durante muito tempo, de Rogério se dizia ser o... irmão do França. No Chelas começou, naturalmente, a jogar. Mas ao vestir a camisola sentia sempre o peso insustentável do parentesco. Temia falhar e deixar mal o nome do irmão.

Peyroteo quis levá-lo para o Sporting...

Foi estudando, na Escola Afonso Domingues. Até ao 4.º ano. Desistiu para se empregar no Grémio das Carnes. Foi aí que conheceu Peyroteo, que trabalhava na secção ao lado. Num jogo entre solteiros e casados, para pessoal do Grémio, em que Peyroteo alinhou como... árbitro, Rogério, que guardara a sua condição de jogador do Chelas como um segredo sagrado, deu de tal modo nas vistas que Peyroteo quis levá-lo para o Sporting. Fez um treino como ponta-esquerda da equipa de reservas, mas como não lhe ligaram peva, raramente lhe passaram a bola, decidiu jamais lá voltar. Mas, porque Peyroteo lhes chamara a atenção para a marosca que os outros tinham feito no campo, os dirigentes do Sporting acordaram oferecer-lhe 25 contos. Ao sabê-lo, o Benfica entrou, célere e lesto, na jogada, subindo a parada em um conto de réis. Foi quanto bastou. Selou-se o acordo. Para Rogério, 16 contos; 10 para o Chelas. E, para além do dinheiro, um jogo entre o Chelas e o Benfica. Com uma condição: que Rogério jogasse pelo clube que iria abandonar. Assim se fez.
  «Lembro-me de que o Francisco Ferreira ficou a marcar-me. Andou o jogo todo a beber água e a borrifar-me com os bochechos sempre que eu lhe fugia.»

Pelo Benfica estreou-se contra o Belenenses, nas Salésias. Como extremo-direito. Mas como Francisco Valadas se retirara das lides, Janos Biri transferiu-o para a esquerda, passando a jogar ao lado de Teixeira, a quem, ternamente, todos chamavam... Semilhas. Assim ficou. Mas pela vida fora foi dizendo que se o tivessem utilizado como interior teria rendido muito mais...

A bicicleta do Benfica e o automóvel do Botafogo

No seu tempo viveram-se os últimos dias do futebol romântico. «Posso dizer que joguei quase sempre por amor à camisola.» Dinheiro? Muito pouco e apenas em situações especiais. «Por exemplo, em 1945, por nos sagrarmos campeões recebemos um prémio de 500 escudos. Pareceu-nos uma fortuna, porque, naquela altura, o ordenado mensal de um craque andava pelos mil escudos. Por isso, ninguém podia viver só do futebol. Eu jogava e trabalhava com o Peyroteo no Grémio das Carnes. 
No Grémio das Mercearias trabalhavam o Espírito Santo, o Jesus Correia, o Canário. O maior prémio na Taça de Portugal foi em 1954, na minha última vitória: cada um de nós recebeu dois contos de réis, que naquela altura davam para sustentar uma casa de família um mês inteiro. Em Portugal não se enriquecia com o futebol. Quando fui para o Brasil recebia cerca de 18 contos por mês. Num ano ganhei mais do que ganhara em toda a minha vida. Deu para comprar um automóvel, no regresso, que era, então, o sonho de qualquer jogador de futebol. Com o dinheiro do Benfica comprei uma bicicleta, que utilizava para me deslocar para o quartel, durante a tropa...»
E por estar ainda habituado ao sentimentalismo, depois de escorraçado por Otto Glória da Luz foi jogar para o Oriental. Não quis ordenado. Que era coisa que muitos clubes lhe queriam dar. O Caldas, por exemplo. Aceitou apenas receber os prémios. E iguais aos de todos os outros. Com a camisola do Oriental, tendo como companheiro Azevedo, foi campeão nacional da II Divisão...

Multa na «guerra do bacalhau»

Talvez fosse o seu único complexo. De inferioridade. Sempre que o sportinguista Álvaro Cardoso lhe saía ao caminho, Rogério anulava-se a si próprio. Como se o outro fosse a bête noire que o arrebanhasse. Inapelavelmente. «Por isso, foi com uma alegria imensa que o vi abandonar o futebol. Se ele, nesse dia, fez a sua festa, eu fiz a minha. Nunca mais jogaria contra ele...»
Ainda a propósito de jogos com o Sporting... Igualmente por meados dos anos 40, um grupo de jogadores decidiu concentrar-se num restaurante do Lumiar poucas horas antes de uma partida decisiva contra o Sporting. Sem se preocuparem muito com a peleja, fizeram grande almoçarada. Batatas com bacalhau.
Foram para o jogo e perderam. Por 3-1. Só não foi catastrófico o resultado porque, nesse dia, os sportinguistas estavam de pontaria desafinada. Mas, no jogo jogado, foi tal a humilhação que os dirigentes do Benfica decidiram castigar com multa de meio mês de ordenado todos os jogadores que suspeitava terem estado no restaurante. Abriu-se assim uma novela pícara, que ficaria por esse tempo famosa como a guerra do bacalhau. Por mais que Rogério jurasse que não tinha estado no que os seus directores diziam ter sido um... pic-nic, que jogara mal por causa daquelas grilhetas que Cardoso lhe amarrava nas pernas, também foi castigado...
Não muito tempo depois, quando o Sporting, ganhando nas Amoreiras por 4-1, arrebatou o Campeonato de 1947/48, por um golo apenas, no que ficaria para a história como o Campeonato do pirolito, por aquele golo à maior ficar para sempre atravessado na garganta dos benfiquistas. Quatro golos marcou então Peyroteo e Rogério nunca mais se esqueceu do rosto lívido do guarda-redes do Benfica, Rogério Contreiras, que, na cabina, não era capaz de dizer mais que a frase que repetiria, como se fosse disco riscado, vezes sem conta: «Não sei o que o Peyroteo tinha nos pés que ele rematava e as bolas torciam a meio do caminho, enganando-me.» Mas nem o facto de nesse dia não ter havido almoçarada de bacalhau evitou que os benfiquistas fossem, todos, castigados com base na mesma salomónica medida.

Para o Botafogo, em lua-de-mel...

Rogério foi o primeiro futebolista português contratado para jogar no Brasil. Em 1947 recebeu convite do Botafogo. Foi a forma que um dos seus dirigentes descobriu para captar adeptos portugueses que chegavam ao Rio e começavam, como que por sentimental impulso, a torcer pelo Vasco da Gama. Ofereceram-lhe 40 contos de luvas e um ordenado entre 3000 e 5000 cruzeiros. Pediu 50. Deram. Como deram... 100 ao Benfica. Foi essa verba que convenceu Tamagnini Barbosa, presidente benfiquista, que até aí vetara a transferência. 


Para partir para o Rio, Rogério antecipou em dois meses o casamento. Foi à aventura, mas, também, em lua-de-mel. Não foi muito feliz. O dr. Heleno, que era jogador carismático, fez-lhe a vida negra. Lançou-lhe cascas de banana para o caminho e porque, entretanto, a mulher engravidara e desejava que o filho nascesse em Portugal, Rogério quis mudar, outra vez, de rota. Oito meses depois estava de regresso ao Benfica, por imposição da DGD. Nem sequer pôde negociar quem estivesse disposto a dar-lhe mais. O F. C. Porto, por exemplo. Mas, com o dinheiro que trazia, pôde abandonar o emprego no Grémio das Carnes para se dedicar, exclusivamente, ao futebol. Só algum tempo depois passaria a agente de vendas da Auto-Boavista, emprego que manteria pela vida fora. Quando, em 1954, Otto Glória chegou ao Benfica, recusou jogadores empregados. Com 32 anos, Rogério viu que não poderia aspirar a muitos mais anos de águia ao peito. Desempregar-se seria loucura. E, magoado, foi para o Oriental, onde o irmão, Armínio França, era director...

Taça Latina nas mãos por capricho

Quando chegava a hora da final da Taça de Portugal o génio libertava-se. Esteve em cinco finais, apontou 15 golos e não conheceu uma única derrota. Se há, em todas as vitórias doces encantos, em algumas há mais que em outras. «Impressionante foi aquela final em que o Benfica ganhou ao Sporting por 5-4 e eu marquei três golos, o último dos quais a 15 segundos do fim.» Assinou o golo que valeu a Taça e desmaiou. De emoção muito mais que de cansaço. «Inesquecível, também, uma final com a Académica, com vitória do Benfica por 5-1 e quatro golos meus. Na minha primeira final, contra o Estoril, em 1943, o Benfica ganhou por 8-1 e eu marquei cinco golos. O Estoril até tinha uma boa equipa, só que nesse dia eu estava endiabrado, os estorilistas diziam-me que sem mim talvez pudessem ter feito uma gracinha.» 

Histórica seria, também, a final da Taça em que o Benfica bateu o F. C. Porto por 5-0. Em 1953. Na tal final entre Ribeiro dos Reis e Cândido de Oliveira. Foi Rogério quem abriu o activo. Por aquele golo recebeu de oferta um relógio de ouro. Não o quis para si. Ofereceu-o à Direcção do Benfica, para que o leiloasse e juntasse o produto da venda para o fundo com vista a financiar as obras do Estádio da Luz...
Mas nesse rol de vitórias não há, naturalmente, a magia da conquista da Taça Latina. Que lhe foi posta nas mãos por um desses incompreensíveis caprichos do destino. «Quando o jogo acabou ficou tudo... louco. Só sei que, por entre empurrões, voando sobre os ombros dos benfiquistas em quase histeria, cheguei à tribuna. O Presidente da República pôs-me a Taça Latina nas mãos. Ainda hoje não consigo descrever o que senti...» O capitão do Benfica era, nesse jogo, Moreira. Mas foi Rogério quem viveu aquele momento arrebatante de tocar a taça e beijá-la, como se fora uma pérola. De uma vida. Para toda a vida.
  
«Pipi»

Quando chegou ao Benfica, tão franzino era que Gaspar Pinto lhe chamou... «agulha». A alcunha não pegou. Pegaria outra, lançada, entretanto, por Francisco Albino: «pipi»! Era assim que se chamava aos rapazes da moda, que vestiam casacos cintados e colarinhos altos. «Eu era um jogador muito elegante, gostava de vestir bem e, um dia, um alfaiate famoso convidou-me a posar, ofereceu-me um fato de gala e um sobretudo e chamou um fotógrafo de arte. Fui, para espanto meu, primeira página da revista 'Flama', como se fosse um artista de... Hollywood. E como estava todo pipi...»


Pipi passou a ser, para si, estilo de vida. Por isso, quando foi para a tropa e lhe cortaram a popa à... pipi, sentiu-se como se fora Sansão sem cabelo. Encafuou um chapéu de palha na cabeça, que colegas mais atrevidos lhe queimaram nos balneários. Quis jogar de boina na cabeça, mas também não lho permitiram. Assim, de angústia foram os dias de cabeça rapada.

Vitórias e património - Rogério "pipi" (1ª parte)



Vitórias e património - Rogério "pipi" (2ª parte)



Vitórias e património - Rogério "pipi" (3ª parte)



Vitórias e património - Rogério "pipi" (4ª parte)