sexta-feira, 1 de julho de 2016

GRANDES NOMES

ARTUR JORGE



"Vértice de Água” escreveu. Vértice da controvérsia foi. Não como jogador, exímio da finalização, mas como técnico, daqueles que chegam com aura sebastiânica e se despedem sem glória. Incontornável é e será Artur Jorge. Filho adoptivo da família benfiquista.



Nasceu em Fevereiros de 1946, na Clínica da Lapa, no Porto. Poucos meses antes de ter sido testado com êxito um dispositivo que iria mudar as nossas vidas, o transístor, anos mais tarde responsável também pela projecção de um dos mais fieis discípulos da doutrina do golo. Cedo nele se revelou insaciável o apetite pelo jogo. Que o pai, empregado comercial, até viria a estimular. Comprou-lhe mesmo uma bola de borracha, obrigando-o a exercitar o pé esquerdo, pois dextro apenas não poderia ser.



Vanguardista, Artur Jorge fundou o Centro Académico Futebol Clube, resolvendo o bicudo problema dos equipamentos com o socorro da Mocidade Portuguesa. Para trás ficavam as disciplinas de vólei e do basquetebol. Depois do Torneio Popular Juvenil do Porto, melhor jogador foi, perfilhou as insígnias do Académico, popular agremiação da Carvalhosa. Num ápice, às Antas chegou, pela mão de José Maria Pedroto. Foi campeão nacional júnior e, na Holanda, ajudou ao terceiro lugar da selecção no Torneio Internacional da UEFA.



À equipa de honra do FC Porto chegou, já com Otto Glória. Havia nele proficiência, não fosse o anátema das lesões e outro galo cantaria. Estudava à noite, com explicadores pagos pela conta-corrente azul e branca, ele que não relaxava no propósito de se licenciar. Com o ingresso de Manuel António nas Antas, Artur Jorge transferiu-se para a Lusa Atenas, fazia-se jogador da Académica, que “mais do que um clube é uma causa”, haveria de escrever José Afonso.



Com livros de Descartes, Nietzsche, Kant e Sartre, debaixo do braço, outros vultos começou a estudar, aqueles que ao domingo atenuavam a perversidade do regime, dando alegria ao provo. Foi no que se tornou também. Marcou golos, muitos golos. Mais do que ele, por essa altura, só no Benfica Eusébio e Torres. Deixou a Académica em segundo lugar no Campeonato, palmo a palmo disputado, em 66/67, com o gigante da Luz. No auge da crise académica de 69, sopravam os ventos do Maio francês, Artur Jorge foi impedido de participar na final da Taça, com o argumento pateta de que  primeiro estava o serviço militar. Nesse jogo, que só politicamente preparou, por ironia o poder era…..vermelho. Ganhou o Benfica (2-1), com camadas de estudantes nas bancadas do Jamor, destemidamente exibindo cartazes contra a guerra colonial e pelas liberdades cívicas e democráticas.



Artur Jorge assinou de vermelho no inicio da temporada seguinte, após ter estabelecido um acordo informal com o Sporting. Perdeu dinheiro, mas jogar ao lado de Eusébio estimulava-lhe a alma. No primeiro ano, sentiu dificuldades para se afirmar no ninho da águia. Já históricas foram as duas temporadas seguintes (70/71 e 71/72), as da equipa-maravilha, conquistando outras tantas Bolas de Prata, troféus atribuídos por “A Bola”, ao melhor artilheiro do campeonato. Tinha um jogo inteligente, de recorte elevado, talvez percursor do “pontapé de moinho”, feliz classificativo para aquele seu gesto mais característico. Não raras vezes, escapava ao senso comum e aparecia numa nesga a farejar o golo. Era glamoroso.




No final de 72, integrou a Selecção Nacional, que embaixada benfiquista mas parecia, na Minicopa, por terras brasileiras disputada. Conquistada a titularidade, protagonizou grande campanha, ao serviço de um colectivo que só morreu, mas de pé, no desafio final, perante o país organizador. “O Eusébio vai recuperar; ele não é um homem com os outros, por isso…..”. Por  isso jogou, frente ao Brasil, ao lado do Pantera Negra, inferiorizado devido a uma lesão. Por isso também, se calhar não ganhou Artur Jorge importante troféu.



Atravessou o 25 de Abril no Benfica. Degenerava um tanto, futebolisticamente, porque as lesões o apoquentavam. Só a um dos joelhos foi operado cinco vezes. Um calvário que o subalternizou até à despedida da Luz. Ainda jogou no Belenenses, com o revolucionário estatuto de trabalhador-futebolista. Durante o dia, sentava-se na secretária da Direcção-Geral dos Desportos; à noite, exercitava-se no Restelo. Eram os tempos das lutas sindicais. Presidente do órgão representativo dos jogadores seria. Ouros golos marcou, em defesa da classe, da sua honradez e dignidade.

  
Épocas no Benfica: 6 (69/75)

Jogos: 130
Golos: 103

Títulos: 4 CN e 2 TP


3 golos de Artur Jorge na vitória de 5 a 1 sobre o Sporting