terça-feira, 7 de junho de 2016

GRANDES NOMES

TONY



O que o Benfica deve a António José Conceição Oliveira é imenso: a abnegação, o espírito de sacrifício, a descrição com que suportou sobressaltos de humor e variações de sensibilidade se sucessivas equipas dirigentes, aceitando, uma e outra vez, dar ao futebol do Benfica o melhor do seu esforço. O que os benfiquistas devem a Toni é, para lá deste exemplo de benfiquismo que não tem paralelo nas últimas décadas de vida do clube, a alegria de dois dos quatro últimos títulos nacionais conquistados, em 1989 e em 1994. E as enormes alegrias que os que têm mais de quarenta anos recordam, enquanto passeou a sua classe de grande jogador, durante toda a década de setenta. 


É que Toni é um ícone do Sport Lisboa e Benfica: ele é o único a ter acumulado títulos de campeão nacional como jogador e treinador. Elemento preponderante da equipa-maravilha dos anos setenta, sustentando o meio campo de um grupo de esmagador futebol de ataque, Toni ganhou então oito títulos nacionais. Juntem-se-lhe os dois já referidos e temos números de inédita proeza. Como se não chegasse, também fez a “dobradinha” na Taça de Portugal: ganhou 3 como jogador e uma como treinador.

Toni iniciou a sua carreira de treinador como adjunto, na segunda época de Baroti: “Quando estivemos em Madrid, no início da época 1980/81, fui comprar um livro sobre futebol e o mister Baroti, quando me viu com ele na mão, virou-se para mim e perguntou-me se não queria ser seu adjunto. Disse-lhe que não, que queria mesmo é jogar, mas percebi que a minha carreira como jogador tinha chegado ao fim. Ainda fui campeão nacional, disputando o último jogo na Luz com o V. Setúbal, partindo depois, com Baroti, para a minha primeira experiência como adjunto".


Assumiu a responsabilidade pela equipa principal do clube em 1987, substituindo Ebbe Skovdhal, que se dera mal com os ares da Luz. Nessa altura, não se perdoavam três derrotas em sete jornadas, mesmo a um treinador de alto gabarito acabado de chegar. Toni não fez milagres: já não foi a tempo de ganhar o campeonato, ficou-se pelas meias-finais da Taça, mas – divina surpresa! – conduziu o Benfica à sua sexta final da Taça dos Campeões, contra o PSV, em Estugarda, vinte anos depois da final de Wembley contra o Manchester United.

Toni não era um treinador de tudo ou nada: privilegiava um futebol de contenção, calculista e cauteloso. Conhecia bem os jogadores que tinha e uma das suas estrelas, o extremo Diamantino, lesionado, teve que ver o jogo da linha lateral. Talvez por isso não tenha ganho a final de Estugarda, contra um PSV que entrou em campo aterrorizado com o prestígio do Benfica. O treinador esticou a corda até aos penalties: ao sexto, a estratégia caiu.

Não ganhou, mas embalou a equipa para um triunfo no campeonato nacional da época seguinte, num onze em que Veloso era o capitão, Mozer e Ricardo compunham uma dupla de centrais de luxo, e Paneira, Valdo e Chalana faziam o que lhes estava destinado: ganhar jogos, nem que fosse pela diferença mínima. Apesar da vitória, aceitou ser adjunto do mais querido dos treinadores benfiquistas: o sueco Sven-Goran Eriksson. Foi com ele campeão em 1991, mas, depois da partida do sueco, aceitou render Tomislav Ivic a meio da época, em nova missão de sacrifício, durante a temporada de 92/93. E no ano seguinte, levando a pulso uma equipa que procurava remediar as saídas de Paulo Sousa e Pacheco para o Sporting, conquistou o titulo de campeão nacional.


Entrara para a História do clube, mas, pela segunda vez, foi preterido em favor de outro. Ganhara, entretanto, uma reputação de salvador. Mas, quando voltou ao clube, de novo, a meio da época de 2000/01, nada se comparava com os seus anos de ouro: o vendaval de loucura que assolara o Benfica durante a presidência de Vale e Azevedo tinha transformado o maior clube português numa equipa remendada, a viver de jogadores emprestados ou comprados em última mão. Toni ainda começou a época de 2001/02; mas não resistiu à onda de maus resultados e, antes que o mandassem embora, saiu. Sem um reparo, sem azedume, sem uma critica mais ácida. Como manda a consciência de quem, acima de quaisquer interesses conjunturais, põe o prestigio e a grandeza do clube que fez seu para toda a vida.

Toni fez o primeiro jogo como treinador do Benfica a 13 de Dezembro de 1987, numa vitória com o Académica (4-2), em Coimbra, tendo disputado o último jogo, a 23 de Dezembro de 2001, numa derrota frente ao Boavista (1-0), no Bessa.